Laura
Plitt
Da BBC Mundo
09/12/14
É uma cena violenta. Um confronto difícil de assistir sem contorcer o rosto ou, de vez em quando, desviar o olhar.
Repete-se a cada ano entre julho e dezembro em Península
Valdés, na Patagônia argentina.
Os rivais: gaivotas e baleias francas.
Embora pareça uma luta entre David e Golias, é a baleia que
tem tudo a perder.
Desde os anos 70, inúmeros ataques de gaivotas a baleias têm
sido registrados nesta região para onde os mamíferos aquáticos viajam com o
objetivo de dar à luz e amamentar seus filhotes antes de iniciar sua viagem
para a Antártida.
Sempre que os cetáceos saem da água para respirar, as
gaivotas usam seu bico para arrancar pedaços inteiros de pele e gordura.
A baleia, com dor, arqueia as costas imediatamente.
De acordo com uma nova pesquisa publicada na revista
científica Marine Biology, esses gigantes marinhos, que podem medir até 16
metros de comprimento e pesar 50 toneladas, estão começando a mudar a forma
como respiram para evitar esses ataques violentos.
"As gaivotas produzem feridas, úlceras circulares, que
podem se tornar uma via de entrada para agentes infecciosos", diz Ana
Fazio, pesquisadora do argentino Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e
Técnicas (Conicet, na sigla em espanhol) e autora principal do estudo.
"Além disso, sem pele, elas podem perder a temperatura
do corpo."
Algumas têm tantas feridas que, quando os ferimentos se
juntam, formam uma espécie de pequeno canal.
Mas o maior problema são os filhotes, diz a pesquisadora.
"Eles têm a pele muito mais frágil. Mudam de pele muito rapidamente porque
crescem muito todos os dias", diz. Isso os torna mais vulneráveis.
Os ataques, que aumentaram desde que começaram a ser observados,
não são para saciar a fome - na região, não faltam lixões a céu aberto ou áreas
de descarte de peixes. Aparentemente, se trata de um comportamento adquirido e
repassado de geração para geração de gaivotas.
- Respiração oblíqua
"Quando as baleias respiram, normalmente levantam
primeira a cabeça e depois o corpo. E, se vão fazer um mergulho profundo,
levantam a cauda também", disse Fazio.
"O que eu comecei a notar é que, agora, levantam a
cabeça até o espiráculo (orifício usado para respiração na altura da do que
seria a nuca) e, em seguida, voltam a entrar na água. Inspiram em um ângulo de
45° e submergem novamente".
Fazem isso de forma rápida, explosiva, mantendo o corpo
dentro da água.
A pesquisadora diz que esse tipo de comportamento, que ela
batizou de respiração oblíqua, está presente apenas nas baleias de Península
Valdés.
"Quando a baleia faz essa respiração oblíqua, a gaivota
fica boiando ou planando e não ataca."
É diferente de curvar as costas, por exemplo - outro comportamento
verificado em adultos, uma estratégia que também pode evitar bicadas, mas não é
exclusiva das baleias da Patagônia argentina.
- Energia extra
Apesar de ainda não estar confirmado que isso reduz o número de lesões, é
evidente que está limitando as possibilidades de ataque, diz Fazio.
A vantagem deste comportamento, explica, é que também pode
ser adotado por filhotes. Porém, a nova estratégia também tem desvantagens.
Manter o corpo embaixo d'água exige um gasto de energia
extra, algo custoso para os filhotes, que deveriam usar a maior parte de sua
energia para mamar, crescer e ganhar força para garantir a viagem para a
Antártida.
Além disso, fugir das gaivotas nadando mais rápido também
exige um custo de energia adicional.
Apesar de tudo, a estratégia parece estar se consolidando.
Na medida em que a população das aves não diminui, os cetáceos continuarão
dependendo de sua própria criatividade para ganhar a guerra contra as gaivotas.
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